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| Mia Couto, Mary del Priore, Ondjaki e José Eduardo Agualusa, escritores que estarão em São Luís pelo projeto Conversações de Além-Mar |
Nos dias 20 e 21 de novembro, São Luís será palco de um encontro inédito que reunirá quatro grandes escritores de língua portuguesa em atividade. O evento faz parte do projeto Conversações de Além-Mar que, em sua 5ª edição, acontece no Convento das Mercês, com palestras e lançamentos de livros. Estarão na capital maranhense o moçambicano Mia Couto, a historiadora Mary del Priore e os angolanos Ondjaki e José Eduardo Agualusa.
Realizado pelo Instituto Casa do Autor Maranhense (ICAM), o evento conta com o firme apoio da Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB), que tem entre suas missões institucionais a promoção e a divulgação do patrimônio histórico e cultural das culturas ibero-americanas e lusófonas, bem como a promoção da amizade e do intercâmbio cultural entre seus povos.
Nas palavras do advogado e escritor Alexandre Lago, um dos idealizadores do projeto, o Conversações de Além-Mar tem por principal objetivo a aproximação das literaturas de língua portuguesa e sua maior disseminação pelos diversos países que falam o idioma, em especial o Brasil. “Nos incomodava e continua incomodando muito o fato de nós, brasileiros, desconhecermos escritores e escritoras dos demais países de língua portuguesa, como Timor Leste, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e mesmo de Portugal, como também o fato de escritores desses países desconhecerem a literatura brasileira contemporânea”, observa Lago, um estudioso da literatura lusófona. “Com exceção de nomes já celebrizados", diz ele, "praticamente não conhecemos esses autores, sendo que eles também desconhecem a nossa produção literária atual”.
Falando do entusiasmo com que a FMRB apoia a iniciativa, o presidente da instituição, advogado Kécio Rabelo, salienta ser esse um projeto que integra, que aproxima e fortalece culturas, o que em grande parte tem a ver com os propósitos da instituição. “Sendo assim", diz Kécio Rabelo, "o evento se coaduna com esse propósito da Fundação, que é de incentivar o diálogo entre as nações de língua portuguesa, reforçando os laços culturais que unem esses países e valorizando a riqueza literária e histórica que emerge dessas tradições”.
Alexandre Lago faz questão de chamar a atenção para um aspecto importante do Conversações de Além-Mar: o de não ficar limitado a encontros em auditórios e lançamento de obras. “Em suas passagens por São Luís, em edições anteriores, os nossos convidados visitaram instituições culturais, como bibliotecas e casas de cultura, trocaram experiências com nossos escritores, conversaram com gestores e visitaram autoridades, formando assim vínculos e pontes importantes para o crescimento da literatura lusófona, incluindo, bom que se diga, a produzida no Maranhão”. Todos esses aspectos, diz Alexandre Lago, "apontam para a dimensão e a importância do projeto, que já se consolida como um dos principais eventos literários de São Luís, fazendo parte do calendário anual de atividades literárias do Estado”.
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Tão perto, tão longe: frustrações além-mar
ResponderExcluirUm de Moçambique, outro de Angola. De África para o Brasil é muito chão - não exclusivamente de terra ou asfalto. De um lado, dezenas de horas contabilizadas em preparações, deslocamentos e voos entre pontos de partida e de chegada. Do outro, grande alvoroço e muitas expectativas em torno deste encontro: não é sempre que se tem o privilégio de assistir, pessoalmente, dois escritores do naipe de José Eduardo Agualusa e Mia Couto, juntos. Apesar da entrada livre, engana-se quem pensa que se trata de um evento gratuito, afinal, alguém precisa pagar a conta. No caso, contribuintes.
A ideia de investir nossos impostos em eventos como Conversações além-mar alimenta aqueles sonhos que nos oferecem olhares em direção a uma realidade diferente - mais sensível, mais atenta e mais implicada. É o tipo de ação política que tem o poder de mover pessoas, sacudir esperanças adormecidas e construir novas (inter)ações. De fato, muitas interações aconteceram no salão lotado de pessoas de variadas partes da cidade, que começaram a chegar cedinho para conseguir um bom lugar. Foram tantas as pessoas que não couberam no salão, que foi necessário improvisar um espaço com transmissão ao vivo em outro cômodo daquele casarão histórico. Uma coisa linda de ver é a confirmação de que é possível mover tantas pessoas diferentes numa mesma direção, fora da rota e distante dos valores neoliberais e mercadológicos.
Porém, parece que algo saiu errado e frustrou o que havia em comum naquela (super)diversidade social, cultural, geracional e de outros tantos marcadores: o desejo de ver-ouvir as ideias e as histórias dos dois convidados da noite, para rir, para se emocionar e para expandir horizontes com seus olhares sobre bonitezas e desencantos do mundo. Não parece razoável tanto esforço, empenho, tempo e recursos utilizados naquele encontro, quando a questão central é ofuscada por um jogo malfeito de egos e de aparências completamente deslocadas.
Dentre várias incongruências, o papel(ão) das desnecessárias “mediações” foi o destaque da noite, deixando a plateia num misto de vergonha, frustração e revolta. Um mínimo de conhecimento sobre os autores e um tanto de sensatez faria qualquer mediador ou mediadora pedir licença e sair do palco, deixando o espaço livre para que Mia e Lusa conversassem entre si – como, provavelmente, grande parte da plateia havia imaginado. Ou, ao menos, que lançassem perguntas abertas, dando liberdade para os autores interagirem com todo aquele cenário diversificado de pessoas, de histórias e de épocas distintas que vivem na cidade.
O que aconteceu no curtíssimo tempo destinado aos convidados foi patético. Perguntas deslocadas ressaltavam a pouca compreensão sobre a obra e sobre as perspectivas dos autores. Indagações sobre "uma verdadeira África" e longas falas prolixas e equivocadas sobre seus livros deram o tom daquele aguardado encontro. A plateia, embaraçada, ouvia as "merdiações" se remexendo nas cadeiras com tamanha falta de noção. Será vaidade, estupidez ou formalidade burra dos organizadores do evento, que não possibilitaram aos autores um mínimo de espontaneidade e naturalidade? Por que privilegiar convenções e formalidades deselegantes, passando por cima dos próprios convidados?
A cereja do bolo foi a interrupção abrupta do evento, após míseros 3 espaços de falas para cada autor. A conversação além-mar durou menos de 1 hora de relógio, como se fala no Maranhão. O encerramento precipitado deixou todas as pessoas em choque, inclusive Agualusa e Mia Couto. A única participação da plateia foi uma intervenção corajosa, implorando à mediadora: "Deixa ele falar!" - seguido de um zumzumzum que assinava embaixo o pedido. E assim, por arrogância e por falta de sensibilidade, toda aquela (super)diversidade social, cultural, geracional e de outros tantos marcadores, foi impedida de compartilhar escutas e histórias, de se emocionar e de expandir horizontes com os olhares e as perspectivas de dois escritores de tão longe, tão perto.